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100 anos da Doença de Chagas: avanços poderiam ser maiores, diz pesquisador

Por Clarissa Cogo

Há 100 anos era descoberta a Doença de Chagas, assim denominada em homenagem ao seu descobridor, o médico sanitarista e cientista Carlos Chagas. Em 1909, o médico descobriu, de forma inédita na medicina, o patógeno e seu ciclo evolutivo, o vetor, o hospedeiro, as manifestações clínicas e a epidemiologia da doença.

A Doença de Chagas é uma doença infecciosa, transmitida ao homem pelo inseto popularmente conhecido como “barbeiro”. O agente causador da doença é o protozoário Trypanossoma Cruzi, assim nomeado por Carlos Chagas em homenagem ao auxílio prestado por Oswaldo Cruz a suas pesquisas. O parasita vive na corrente sanguínea do homem e dos animais infectados e no intestino do inseto hospedeiro.

Embora tenha sido descoberta há mais de cem anos, a Doença de Chagas ainda encontra muitos obstáculos para ser totalmente ou em sua maior parte erradicada.

- A Doença de Chagas teve avanços em termos de conceitos e aplicações na literatura, mas o tratamento e a transformação social não se tornaram prática – disse George dos Reis, pesquisador do Programa de Imunobiologia do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ.

Os remédios utilizados hoje no tratamento de Chagas ainda apresentam caráter cancerígeno e fortes reações adversas, dificultando a cura dos pacientes. Segundo o pesquisador, os dois principais medicamentos têm graves efeitos colaterais, o benznidazol aumenta as chances de câncer e o nifurtimox é teratogêncio, ou seja, provoca a má formação dos fetos.

Atualmente, existem pesquisas que, auxiliadas pelo projeto genoma do Trypanossoma que definiu a sequenciação completa do DNA do parasita, estudam drogas que possam interagir com as células desse organismo sem provocar reações adversas. No entanto, além da falta de verbas destinadas à fabricação dessas vacinas e medicamentos, os estudos carecem de um modelo animal de teste que represente o humano. No caso do medicamento benznidazol, por exemplo, sua aplicação em camundongos leva à cura, porém, se aplicada ao homem, essa droga produz reações adversas severas

- O melhor modelo animal seria o cachorro, porém, ele é um animal mais difícil de se manter em um laboratório, além da sua manipulação em pesquisas científicas encontrar resistências na sociedade – declarou George dos Reis.

Um grande avanço das pesquisas relativas à Doença de Chagas se apresenta na manipulação das células-tronco retiradas da própria medula óssea do chagásico. O método consiste em injetar essas células na veia ou diretamente no coração. Apesar de não se ter certeza da ocorrência de regeneração, o trabalho com essas células vem se mostrando eficiente na medida em que melhora as condições cardíacas e a qualidade de vida dos doentes.

Para casos mais graves da doença existem dois recursos da medicina. Um consiste na colocação do marca-passo, quando as lesões no coração já são mais graves. A segunda alternativa é o transplante de órgãos, com a substituição do coração doente por um saudável. Entretanto, ambos os métodos são de alto custo pelos quais, geralmente, os pacientes de Chagas não podem pagar.

- O Brasil apresenta uma das mais bem sucedidas e avançadas pesquisas sobre a Doença de Chagas, no entanto faltam investimentos tanto do governo como da indústria farmacêutica privada – lamentou o pesquisador da UFRJ.

De acordo com George dos Reis, uma vez que a Doença de Chagas é comum em regiões do interior e acomete pessoas em sua maioria da classe baixa e, portanto, sem condições de custear tratamentos mais caros, as indústrias farmacêuticas não teriam interesse em investir, já que não veem grande retorno lucrativo.

- Por outro lado, os governos e a Organização Mundial da Saúde lidam como se a doença já estivesse erradicada, quando, apenas no Brasil, estima-se que existam três milhões de chagásicos – alertou o pesquisador. - A Organização Mundial da Saúde destinava recursos para pesquisas e fabricação de medicamentos para a Doença de Chagas. No entanto, quando a organização observou o avanço dos estudos da doença no Cone Sul, perdeu o interesse. O erro, nessa situação, consistiu em que a doença se dá de maneiras diferentes nos países da América do Sul e da América Central.

A doença de Chagas pode ser transmitida através do inseto barbeiro que, ao picar homem, elimina também as fezes em que se encontra o protozoário. Outra forma de transmissão se dá pela transfusão de sangue de pacientes portadores da doença para outros que não possuem a doença. Existe ainda a forma congênita que se dá quando uma mãe chagásica engravida e transmite a doença ao feto. Em alguns casos, se o barbeiro infectado for moído ou triturado com alimentos, como é o caso do açaí ou da cana-de-açúcar, a transmissão pode ocorrer por via oral.

Na fase aguda da doença, o paciente pode apresentar febre, inchaço nos olhos e em outras partes do corpo, como fígado ou baço, e aumento dos gânglios e distúrbios cardíacos. Mas essas manifestações acabam passando despercebidas, pois se confundem com sintomas de gripe, por exemplo. A doença pode não apresentar sintomas durante 10 a 20 anos, logo, a maioria dos infectados desconhece ter a doença. Nesse estágio, as manifestações são silenciosas, atingindo o sistema cardíaco e o funcionamento do aparelho digestivo.

A Doença de Chagas conseguiu ser eliminada em algumas regiões do Cone Sul através da dedetização e extinção do inseto barbeiro. No entanto, mesmo após 100 anos, ela ainda é presente em localidades como Bolívia, Venezuela, Equador, algumas áreas do México e da América Central e algumas partes das regiões Norte e Nordeste. Ocorre que naquelas regiões o vetor não é mais o barbeiro e, sim, outro inseto resistente ao inseticida comumente utilizado. Nesses casos, o hospedeiro não reside nas casas, ele é silvestre, ou seja, vive nas florestas e retorna aos domicílios em épocas indeterminadas, dificultando seu extermínio.


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