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Pesquisa associa polpa do açaí à transmissão da doença de Chagas

Por Raquel Amorim e Marcelo Damião

Antes de consumir sua saborosa tigela de açaí, você saberia dizer se está correndo algum risco de adquirir problemas de saúde? Estudo realizado no Brasil comprovou recentemente o que evidências epidemiológicas já indicavam: que a polpa de açaí mal higienizado pode ser veículo para a transmissão da doença de Chagas.

O açaí é o fruto de uma palmeira da Família Aracaceae, típico do Brasil e principalmente da região amazônica. Além de ser bastante apreciado pela população, recentemente pesquisadores descobriram que ele pode abrigar, mesmo quando congelado, o protozoário Trypanosoma cruzi responsável pelo mal de Chagas e servir de veículo para a doença. A suspeita existia desde 2006 e foi recentemente confirmada por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen).

A doença de Chagas, também conhecida como tripanossomíase sul-americana, é uma doença infecciosa causada pelo protozoário flagelado Trypanosoma cruzi, e sua transmissão é feita por insetos triatomíneos, conhecidos popularmente no Brasil como barbeiros. Dados da Organização Mundial de Saúde indicam que cerca de 10 milhões de pessoas estão infectadas cronicamente com a doença na América Latina e há 200.000 novos casos por ano. Durante a evolução da doença, é característico o comprometimento cardíaco e/ou digestivo. Se não tratada, a doença crônica é muitas vezes fatal.

Os mecanismos de transmissão desta doença para humanos incluem transfusões de sangue, transmissão congênita e transplante de órgãos, mas o inseto vetor é o principal transmissor.  O barbeiro tem hábitos noturnos e se alimenta de sangue de vertebrados. Geralmente, o inseto permanece em frestas, colchões, troncos de árvores e outros locais abrigados. A transmissão ocorre por meio de contato com as fezes de barbeiros contaminados, pela pele ou por via oral.

O mal de Chagas por muito tempo foi uma doença típica de regiões pobres, em que as condições de habitação eram precárias, com casas de pau-a-pique recobertas com palha, nas quais o barbeiro facilmente se abriga e pica as pessoas durante a noite. Entretanto, o mecanismo de transmissão oral tem chamado a atenção nos últimos tempos. Primeiramente, em 2005, houve um surto reportado em Santa Catarina, com 25 casos confirmados e 3 óbitos. O consumo de caldo de cana contaminado com os protozoários, possivelmente pela maceração de barbeiros juntamente com a cana-de-açúcar ou através do contato desta com fezes de animais infectados, foi apontado como a fonte do surto. No mesmo ano, o estado do Amapá notificou outro surto, com 27 casos confirmados, e o ponto comum foi o consumo de açaí. No ano seguinte, no estado do Pará, foram registrados 178 casos da doença e novamente os pacientes haviam ingerido açaí em pontos de venda comuns.  Isso chamou a atenção dos pesquisadores, levando à realização de pesquisas sobre a causa deste surto, a pedido do Ministério da Saúde. Neste estudo, uma cepa do protozoário foi usada para contaminar amostras de polpa. Depois, a polpa foi filtrada e mantida em diferentes condições: em temperatura ambiente; a 4°C, temperatura média de uma geladeira; e a -20°C, temperatura do açaí congelado. Foi constatado que o parasita permanecia viável nas diferentes condições. Em seguida, as amostras foram inoculadas em camundongos e verificou-se que eles desenvolviam a doença. Este foi o primeiro estudo a comprovar efetivamente que a polpa do fruto pode transmitir a doença.

A higienização correta dos frutos ainda é o método mais importante de prevenção. O açaí industrializado deve possuir registro no Ministério da Agricultura e passar por processos de lavagem e pasteurização, que eliminam qualquer possibilidade de sobrevivência do Trypanosoma cruzi. Desta forma, o risco de infecção é maior para aqueles que consomem a polpa fresca. Em boa parte da região Norte, o fruto é encontrado em feiras e mercados em estado natural, sem passar pelos processos de industrialização. Por isso, moradores ou turistas que visitarem a região Norte devem procurar consumir o fruto somente em locais certificados pela Vigilância Sanitária. Por outro lado, para aqueles que consomem a polpa de açaí industrializada e que passa pelo processo de pasteurização, necessário para a venda em outras regiões do Brasil e no mercado externo, o risco é quase nulo.


Ouça no Podcast Bio ICB um pouco mais sobre este assunto.

 


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